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Fernando Cespedes
>> Segunda, 07 de Janeiro de 2008
Be water, my friend
por Fernando Cespedes em SoundCheck
Quase todo mundo tem aquela fase radical com música. 

 

Digo quase porque tem gente que não gosta de música, mas, se você gosta, já teve sua fase. O cara é metaleiro, e, se toca algo mais leve que Cradle of Filth, já parte para a agressão. Ou então o cidadão está em sua fase eletrônica, raver, clubber e, quando fareja o menor resquício humano – seja um fio de cabelo do operário durante a prensagem do cd seja um germe do espirro do designer durante a criação do encarte – lá vem aquela cara de diarréia.

Eu também já tive minha fase. Lembro bem de ter ido à Bahia com uns 16 anos. Sol, praia e muito axé, num palco montado na praia na frente do hotel. Duas loiras rebolavam, um negão remexia e outros cinco faziam o som, diariamente, nine to five. Eu, plantado embaixo do sol, tive como melhor amigo nessa viagem meu discman, que rodava sem parar o S&M, que o Metallica havia lançado fazia uns meses.

Uns dois anos depois, voltei à Bahia para o glorioso rito de passagem do jovem paulistano rumo ao mundo dos homens: a semana do colégio em Porto Seguro. Nesta época, ainda ouvia muito rock pesado, mas não só compareci a todos os eventos musicais da semana (desconsidere o fato de que música não era, não é, nem nunca será, o principal atrativo numa viagem deste tipo) como me lembro de ter me divertido muito nos shows da Ivete Sangalo, Harmonia do Samba e outros do gênero. O que aconteceu naquela semana foi algo muito simples: eu me tornei água.

Nascido num hospital chinês em São Franscico, Califórnia, Bruce Lee talvez tenha sido o maior lutador da história. Seus golpes e gritos conquistaram Oriente e Ocidente em iguais proporções. No auge de sua carreira, o velho rival de Chuck norris concedeu uma entrevista (que depois virou até propaganda da BMW), na qual deu dicas pseudo-filosóficas a seus seguidores:

Empty your mind, be formless. Shapeless, like water. If you put water into a bottle, it becomes the bottle. You put it in a teapot it becomes the teapot. Now, water can flow or it can crash. Be water my friend.

Mesmo não sendo fã das trilhas sonoras de seus filmes, muito menos de música popular chinesa (até mesmo pelo fato de não saber identificar uma), reconheço neste particular ensinamento do mestre uma valiosa dica aos extremistas musicais. Já tendo feito parte do Taliban sonoro, faço um balanço não tão positivo de minha militância no grupo do “tira essa merda!”.

Claro que ainda luto contra alguns fenômenos musicais que só a rica miscigenação cultural brasileira é capaz de formar, mas percebo que a minha luta agora é mais “agora não é o clima” do que “prefiro ter uma agulha atravessada no meu tímpano durante toda a eternidade”.

Não que você deva vibrar com tudo o que o mercado vomita em cima de você, mas, para manter sua própria sanidade, tente educar o ouvido a pelo menos aceitar outros sons. Se você é roqueiro, comece com o Blues, virá então o folk e, quando você perceber, estará num churrasco ouvindo Leandro & Leonardo sem tentar o suicídio com o espeto de linguiça. Se a sua é o reggae, experimente o dub. Quando você perceber, já estará dançandinho um eletrônico na balada. Fazendo isso, você fará a música trabalhar para seus nervos, e nunca contra eles.

 

Lembre-se, a música é sua amiga, inventaram-na para te divertir. Seja água, meu amigo. Ou morra com um discman na orelha.
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>> Quinta, 29 de Novembro de 2007
A vida através de uma Carl Zeiss
por Fernando Cespedes em Tecfilosofice

Estou ficando velho.

 

E como todo velho, estou me tornando especialista em reclamar. Às vezes tenho medo do velho que serei daqui a uns 50 anos, quando for velho de verdade. Talvez me torne insuportável para a sociedade e seja obrigado viver numa chácara rodeado apenas de cachorros, reclamando de latidos o dia inteiro. Ou talvez eu me torne um daqueles ‘loucos da sucata’ que saem no jornal às vezes quando a vigilância sanitária encontra carros antigos, sofás velhos, ratos, sacos de lixo do vizinho e outras toneladas de entulho em seu quintal, exalando pestilência bairro afora. De qualquer maneira, uma das minhas diversões atuais é reclamar.



Hoje meu alvo é você, com seu celular biônico ou câmera de 18 megapixels, que insiste, como uma horda de chineses no Louvre, em tirar foto e filmar todo e qualquer evento que participe. O que você quer com isso? Fazer um backup de tudo que já viu de interessante na vida? Provar para seus amigos no orkut que você foi naquele show ou naquele jogo? Não te entendo...



Resolvi levar minha ira à tela deste blog depois de ter ido ao show de Chemical Brothers, anteontem (para provar tenho o ingresso e 4 testemunhas). Além da música , as grandes atrações do show foram um telão enorme de absurda resolução, que passava projeções muito bem criadas e o jogo de luz, com canhões a laser e outras parafernálias. Todos os aparatos, somados à música, formou um show audiovisual dos melhores. Som e luz trabalhando juntos para deixar o povo louco por 1 hora e meia.



Mas muita gente não viu isso. Muitos preferiram registrar o telão com suas cybershots, em gravações tremidas, sem foco, sem luz, sem som, sem nada. Um grupo passou mais de 15 minutos tentando tirar uma foto deles com o palco ao fundo...colocavam flash e o rosto explodia em branco. Não colocavam, tudo tremia e nada aparecia além do telão. Depois de muito tempo, conseguiram uma foto sofrível para o orkut, em troca perderam irrecuperáveis 15 minutos da apresentação que pagaram e esperaram tanto pra ver.



Bom, na verdade, os 15 minutos podem sim serem recuperados. É só acessar o utube, onde, por sorte, estará a gravação deste mesmo show, se alguém mais tiver também perdido a apresentação para filmá-la.



É isso o que acontece hoje em dia: perdemos os shows, os jogos, os filmes, as peças (a vida?) para que possamos registrá-los para assistir depois. Ou pior, às vezes só para mostrar que fomos. Trocamos o ao vivo, o real, a experiência pelo estático, o gravado, o falso.



É mais importante ter registrado na câmera do que na cabeça. Já não basta assistir tv em casa. A moda é levar a tv pra rua, e empobrecer tudo o que podemos sentir ao vivo, enquadrando as experiências num lcd de 5 polegadas.



Minhas recordações de shows estão numa caixa de uísque. São restos de ingressos, que se despedaçaram dentro dos bolsos durante cada música. E eles têm cheiro, som e cor.



Não esperava ficar velho aos 24.

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