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Tecfilosofice
>> Quinta, 29 de Novembro de 2007
A vida através de uma Carl Zeiss
por Fernando Cespedes

Estou ficando velho.

 

E como todo velho, estou me tornando especialista em reclamar. Às vezes tenho medo do velho que serei daqui a uns 50 anos, quando for velho de verdade. Talvez me torne insuportável para a sociedade e seja obrigado viver numa chácara rodeado apenas de cachorros, reclamando de latidos o dia inteiro. Ou talvez eu me torne um daqueles ‘loucos da sucata’ que saem no jornal às vezes quando a vigilância sanitária encontra carros antigos, sofás velhos, ratos, sacos de lixo do vizinho e outras toneladas de entulho em seu quintal, exalando pestilência bairro afora. De qualquer maneira, uma das minhas diversões atuais é reclamar.



Hoje meu alvo é você, com seu celular biônico ou câmera de 18 megapixels, que insiste, como uma horda de chineses no Louvre, em tirar foto e filmar todo e qualquer evento que participe. O que você quer com isso? Fazer um backup de tudo que já viu de interessante na vida? Provar para seus amigos no orkut que você foi naquele show ou naquele jogo? Não te entendo...



Resolvi levar minha ira à tela deste blog depois de ter ido ao show de Chemical Brothers, anteontem (para provar tenho o ingresso e 4 testemunhas). Além da música , as grandes atrações do show foram um telão enorme de absurda resolução, que passava projeções muito bem criadas e o jogo de luz, com canhões a laser e outras parafernálias. Todos os aparatos, somados à música, formou um show audiovisual dos melhores. Som e luz trabalhando juntos para deixar o povo louco por 1 hora e meia.



Mas muita gente não viu isso. Muitos preferiram registrar o telão com suas cybershots, em gravações tremidas, sem foco, sem luz, sem som, sem nada. Um grupo passou mais de 15 minutos tentando tirar uma foto deles com o palco ao fundo...colocavam flash e o rosto explodia em branco. Não colocavam, tudo tremia e nada aparecia além do telão. Depois de muito tempo, conseguiram uma foto sofrível para o orkut, em troca perderam irrecuperáveis 15 minutos da apresentação que pagaram e esperaram tanto pra ver.



Bom, na verdade, os 15 minutos podem sim serem recuperados. É só acessar o utube, onde, por sorte, estará a gravação deste mesmo show, se alguém mais tiver também perdido a apresentação para filmá-la.



É isso o que acontece hoje em dia: perdemos os shows, os jogos, os filmes, as peças (a vida?) para que possamos registrá-los para assistir depois. Ou pior, às vezes só para mostrar que fomos. Trocamos o ao vivo, o real, a experiência pelo estático, o gravado, o falso.



É mais importante ter registrado na câmera do que na cabeça. Já não basta assistir tv em casa. A moda é levar a tv pra rua, e empobrecer tudo o que podemos sentir ao vivo, enquadrando as experiências num lcd de 5 polegadas.



Minhas recordações de shows estão numa caixa de uísque. São restos de ingressos, que se despedaçaram dentro dos bolsos durante cada música. E eles têm cheiro, som e cor.



Não esperava ficar velho aos 24.

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>> Quinta, 04 de Outubro de 2007
Blogagem Mundial para a liberdade de Burma
por Kerly Tanaka

Free Burma!

 Hoje é o dia internacional para blogar pedindo pela liberdade de Burma (União de Myanmar). Semana passada o governo de Burma quase retirou o país da Internet.

Sobre Burma na Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Myanmar

Sobre a tentativa do governo de Burma de retirar o país da Internet:

Burma s Internet Crackdown
(do Technology Review)

Partipe: http://www.free-burma.org/

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>> Quinta, 05 de Julho de 2007
Autoria e Commons no Itaú Cultural: Memória do futuro
por Kerly Tanaka

O Itaú Cultural está realizando até sábado o Simpósio Memória do Futuro.

A palestra desta quinta foi Propriedades e espaços comunais com Ronaldo Lemos (Creative Commons) e o prof. Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses (Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências da USP).

O instituto promove anualmente simpósios sobre temas relacionados a arte e tecnologia. Muitas coisas ali apresentadas acabam sendo sementes de projetos futuros, incluindo o Rumos.

É um caldeirão que, normalmente, antecipa o F.I.L.E (Festival de Linguagem Eletrônica). E neste caldeirão costuma-se encontrar projetos e pesquisas de localidades próximas ou distantes, mas sempre de vanguarda (por mais que essa palavra soe falsa e arrogante).

O Creative Commons, por ex, está aí há alguns anos. O simpósio do ano passado exibiu projetos de interação virtual homem-máquina que hoje estão amplamente difundidos seja em telas de VJs como o VJ Pixel, seja via avatares de Second Life.

Sobre a palestra de hoje:
O prof. Ulpiano desenvolveu um trabalho de arqueólogo sobre a etmologia da palavra autor: autoria e autoridade. Considerando principalmente a imagem visual e os paradoxos existentes entre uma obra gerada ao se reproduzir imageticamente o real: observado, autor e obra. E também da aporia, processos e produtos. Resgatando mitos gregos, sobre Teseu e seu barco: forma ou produto? As pranchas fazem o barco ou o barco fazem a prancha? Uma fotografia tem sua autoria pela pessoa que clicou mas sem o observado não existiria. E ainda: quem observa também imprime e retira dela experiências próprias.

A exposição de Ronaldo Lemos exibiu números a respeito da indústria cultural e do quanto esta se modificou desde o advento da internet: o número de vendas de cds, dvds e livros diminuiu enquanto que o número de obras distribuídas gratuitamente (incluindo aí uma proporção incrível de obras originais) cresceu drasticamente.

Citou o caso da Nigéria que não possui nenhuma sala de cinema mas em termos de número de produção "cinematográfica" só perde para os EUA (Hollywood) e Índia (Bollywood). Em termos de rentabilidade, a indústria da Nigéria também está no mesmo rol: vendem suas produções de baixo custo em feiras semanais, via DVD, que se multiplicam.

Citou também um caso muito mais próximo: o Tecnobrega no qual os autores alugam estúdios para produzirem suas obras (ritmos de anos 60 com o romantimos da jovem guarda dos 70 incluindo aí a batida eletrônica dos 90 em diante). Saindo dos estúdios, distribuem o demo para os camelôs e faturam nas festas chamadas de aparelhagem nas quais ainda vendem um cd com encarte pela bagatela de R$ 7,00.

Faturam em média uns R$ 2200,00 mês, sendo que a média de renda do estado é de R$ 700,00.

Enquanto que a maior produtora de CDs do Brasil (Sony) lança 13 CDs ano, apenas a indústria do Tecnobrega do Pará lança algo entre 100 CDs.

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